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The Bridge

Agosto 18, 2008 por Ana Camila

Hoje eu assisti a um filme algo perturbador. Trata-se do documentário “The Bridge”, sobre os suicídios que acontecem com frequência na Golden Gate Bridge, na California. O diretor passou o ano de 2004 inteiro filmando, com uma equipe, o cotidiano das pessoas que passeavam pela ponte, a fim de registrar os momentos exatos nos quais determinadas pessoas decidiam tirar suas vidas.

Eu demorei um tempão pra escolher, entre as milhões de fotos da Golden Gate bridge disponíveis na rede, uma que mais ou menos traduzisse meu sentimento com relação ao que traz esse filme. O diretor, ao registrar esses derradeiros momentos, entrou em contato com as famílias dos suicidas e foi montando perfis de pessoas socialmente desajustadas, umas com conflitos bem previsíveis, outros nem tanto. E na minha cabeça sempre vinha o mesmo pensamento: ninguém tinha a menor noção do que se passava na cabeça dessas pessoas.

Os pais choram desconsolados e tentam justificar com milhões de argumentos sobre a criação e a vida que o suicida levava. Os amigos dizem para si mesmos que nunca imaginavam que “ele realmente iria se matar, mesmo que falasse disso o tempo todo”. Os desconhecidos que, por obra do acaso, estavam presentes no momento que alguém se atirou da ponte, devaneiam sobre terem sido provavelmente a última pessoa no mundo a ver aquele ser com vida. Mas ninguém, ninguém tem a menor idéia do que DE VERDADE sentiam aquelas pessoas, se o estômago delas embrulhou, se o vento lhes dava alguma sensação prazeroza, se, ao se encontrarem ali, no momento crucial, tiveram certeza de que realmente não tinham mais nada pra fazer nesse mundo ou se vacilaram. Ninguém sabe. E isso é algo que nunca ninguém vai saber.

A história que mais me tocou foi a do Gene, um metaleiro poser que vivia dizendo pra todo mundo que ia se matar. Os amigos encheram o saco dele. Ele, tão poser, que viva todo de preto, preto all around, músicas agressivas, conflitos com a mãe que tinha câncer, não se esforçava pra conseguir um trabalho, era um loser. Isso é o retrato que os (infelizes) amigos dele passaram no filme. Quando Gene finalmente se jogou, depois de ficar horas e horas rondando pela ponte e finalmente constatar que ninguém se importava mesmo, os amigos “não acreditaram”. O pior foi a amiga dizendo que, no dia que ele se matou, havia na secretária eletrônica dele uma oferta de trabalho magníiiiiifica, sensacionaaaaal, justo o que ele queria!! Ah, se ele tivesse esperado um pouco mais!!! ¬¬

Claro. As pessoas hoje em dia prestam tanta atenção umas às outras que essa amiga achava que o problema do Gene era não ter um trabalho. Nessa hora eu tive pena do pobre metaleiro, queria poder ter tido uma conversa com ele enquanto ele perambulava pela ponte com seus cabelos longos e negros, com sua jaqueta negra de couro e seus óculos escuros. Eu não tentaria demovê-lo da idéia, sinceramente acho que não me cabe – como não cabe aos policiais que ficam vigiando os prováveis suicidas diariamente. Mas eu lhe daria minha mão e tentaria lhe dar pelo menos um momento bacana, porque eu bem sei que a vida vale por momentos bacanas e não por todo um conceito abstrato de alegria e felicidade.

No fim das contas, um outro amigo do Gene disse que, se o encontrasse algum dia, lhe diria que tem muita raiva do que ele fez, que ele o machucou e que isso vai ser difícil de perdoar. Nessa hora eu chorei. Chorei pela falta de compreensão que existe nesse mundo, pelo egoísmo absurdo desse cara, pela falta de respeito pelas coisas que ele não chega nem perto de entender.

Maybe he just wanted to fly one time…

Who’s to know?…

E as fotos, as fotos da ponte que eu escolhi são duas visões que, por variadas razões, me passaram pela cabeça ser a visão que eles tinham no momento de pular. Alguns de paz profunda, de redenção, outras de sombras e escuridão, the ultimate hell. Não sei. Não tem como saber…

Publicado em Cinema, Devaneios | Sem comentários ainda

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