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Enrique (parte 5)

Agosto 17, 2008 por Ana Camila

Então tudo era mentira. Não só ela, eu também. O que queria eu oferecendo um casamento àquela menina? Marta era demasiado livre pra deixar que eu ou qualquer outro lhe retivesse por qualquer razão. Mas de alguma forma, ela me deixou entrar nos seus dias, me deixou olhar nos seus olhos e ouvir sua voz. Eu não suportava a idéia de perdê-la, não tolerava nem sequer imaginar que tudo voltaria a ser como era antes de ela chegar. Eu nem me lembrava direito de como eram as coisas, todas as cores do mundo tinham mudado e eu já não me interessava em como eu era antes de Marta.

Mas então era mesmo mentira. Era mentira o que criei ao redor de Marta. Afinal de contas era só uma menininha, uma brasileira cheia de sonhos no país dos outros, uma estrangeira que falava um espanhol horrível e que não tinha precisamente nenhuma característica intelectual que me atraísse ou alguma apelação sedutora que superasse minha paixão por Lucía. O que Marta tinha era o que eu imaginei que ela tinha – e isso era mais que suficiente pra mim. Se ela sabia ou não sabia disso, pouco importava. Eu só não queria perdê-la, perdeu seu carinho, perder sua voz boba quando me dizia “te quiero” do nada, mas com os olhos brilhando.

Marta foi embora e por muitos dias eu não soube nada dela. Tive que perguntar por todos os lados até descobrir que ela estava novamente trabalhando em um bar, não muito diferente do outro no qual a conheci. Alguns euros me permitiram descobrir o seu novo endereço, e se tratava do endereço do otro tío, o cara com quem ela ia se casar, provavelmente. Nem me dei conta de que estava agindo como um detetive, um verdadeiro stalker. Mas pra mim não havia nada que importasse além de ver o que Marta estava fazendo longe de mim.

Eu não aparecia, não ligava, não a deixava perceber minha presença no seu trabalho ou na sua casa. Mas me doía o fato de ela nunca me procurar, nunca me ligar. Me dava raiva, e a raiva eu deixava transparecer sempre, ao contrário da tristeza. Comecei a pensar nas mais diversas formas de fazer que ela voltasse pra mim pedindo desculpas e se humilhando, e de como eu a receberia cruelmente, mas a deixaria ficar. Mas ela não ia voltar, não ia me pedir nada. Tanta raiva me dava vontade de entrar pela porta daquele bar e esganá-la, chamá-la de puta e vagabunda, de mentirosa e traiçoeira. Por vezes tive um impulso de fazê-lo, de ao menos ameaçar aquela estabilidade que ela exibia vivendo longe de mim. Queria que ela tivesse medo de mim, que mostrasse um mínimo de pesar por ter me deixado depois de tudo o que eu fiz só por causa dela.

Minha vida passou a ser somente seguir os passos de Marta. Principalmente nos finais de semana, quando ela ficava em casa o tempo inteiro com o namorado. Nunca soube o que ele fazia da vida porque ele nunca, NUNCA deixava o apartamento. Seria um típico homem-problema, depressivo, beberrão, artista, usuário de drogas, qualquer coisa clichê pra combinar com a vida de Marta em Barcelona até então. E esse cara ou era vagabundo ou então era rico. Mas ele me importava menos do que eu esperava. Eu só me preocupava por Marta, mendigava segundos de sua atenção ou algum momento em que eu pudesse vê-la andando sozinha pela rua. Por isso eu me plantava num barzinho na esquina da rua dela, e esperava que ela saísse por qualquer razão, só para que eu a visse outra vez.

Uma vez, num domingo de tarde, eu estava lá refugiado naquele bar da esquina, esperando que ela aparecesse. Era um domingo frio e vazio – não havia ninguém na rua. Ela saiu do prédio de repente, com aquele velho sobretudo preto, encolhendo os ombros de tanto frio e olhando pros lados, como sempre teve a mania de fazer. Eu não mexi nenhum músculo, nem quando percebi que ela estava indo na direção do bar. Fixei o olhar nela, acompanhei seus passos, e ela me reconheceu somente quando se aproximou. Quando vi que me reconheceu, desviei o olhar. Óbvio que pensei que ela ao menos viria falar comigo, mas ela passou direto e entrou no bar. Vi que ela tinha me olhado bem, que sabia que era eu, mas passou de mim totalmente. Aquela frieza e indiferença me encheram de ódio e me veio mais uma vez aquela vontade de apertar o pescoço dela, de machucá-la mesmo. Segurei com força o copo de cerveja e tomei de um gole só tudo o que restava nele. Quando coloquei o copo de novo na mesa, já decidido a sair dali, ela apareceu do nada, por trás de mim, empurrou meu ombro pra baixo, se inclinou e me olhou bem nos olhos.

- Déjame en paz.

Ela me olhou por mais alguns segundos e depois se levantou e me deu as costas. Peguei o copo de cerveja e, com toda a raiva que havia dentro de mim, atirei o copo em sua direção. Ele se espatifou bem ao lado dela. Mas ela não se assustou, não olhou pra trás, não se abalou de nenhum modo. Continuou andando e entrou no prédio sem olhar pra mim uma vez sequer.

(continua…)

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