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go the distance

Ir e voltar e ir outra vez… E apostar. E acreditar. E investir. E ceder.

Para nada.

Eu não sei nada de dança. Pra mim, dançar sempre foi sinônimo de acompanhar, com passinhos, uma música. Com o mês da dança noTeatro Vila Velha, decidi que poderia começar a ter um repertório nessa arte tão desconhecida pra mim e já vi três espetáculos, tão diferentes entre si.

Pensei em comentar o que cada um me causou de diferente, mas o mais legal é o que me causaram de comum. O primeiro foi esquisito, o segundo foi o horror e o terceiro foi muito bom. Mas, gostando ou não, me dei conta mais uma vez da beleza que é o monte de possibilidades que o nosso corpo nos dá. Podem-se fazer muitas coisas com o corpo. E isso é tão lindo que me faltam palavras pra descrever.

Ainda quero ir ver muitas coisas no Vila. Aumentar meu repertório e ter a oportunidade de conhecer coisas novas em relação às quais eu sou uma verdadeira porta é uma chance mágica. E não perderei. :)

Meu lugar no mundo

Tenho deixado de fazer coisas que me davam prazer – e que, agora, perderam a graça. Tornaram-se repetitivas. Tenho deixado de fazer coisas que me deixavam em dúvida – e que, agora, revelaram de vez a sua face incômoda. Tornaram-se dispensáveis, como amigos do passado que já não têm nada a dizer.

Reler Hagamenon Brito é como redescobrir meu lugar no mundo.

Hoje em dia

Ele detestou, por toda a vida, aquele sentimentalismo e super drama do Renato Russo, especialmente aquela música que pergunta “e hoje em dia como é que se diz eu te amo?” Ora, como assim? As pessoas vivem suas vidas esperando aquele momento em que o “eu te amo” vai sair tão espontâneo e natural… E mesmo que elas digam que amam sem amar, o desejo de amar é o mais lindo no “eu te amo”.  Mas ela não entendia isso. E, ugh, ela gostava de Legião Urbana, achava que a dor do Renato Russo se encaixava tanto nela. Ele preferia Chico Buarque cantando sobre saudade, ou mesmo Roberto Carlos e sua “De Tanto Amor”, outra cheia de saudades. Ela preferia a desesperança e a dor bobinha dos que acreditam em felicidade.

Pensou em bater na porta dela com pãezinhos de queijo e o mais doce dos sorrisos. Mas o “eu te amo” estava ali entre os dentes, ele o sentia na garganta. Ela seria apenas beijos e mãos e letras. Ainda assim, a amava com todas suas entranhas. Mas para que? Não lhe diria nada, ela ainda se pergunta como é que, hoje em dia, ainda dizem “eu te amo” por aí.

Beija-flor

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Ele entrou, quieto como entram as visitas. Examinou tudo ao redor, a colcha nova da cama, os quadros na parede, a ausência de porta-retratos. Foi entrando na cozinha quando percebeu que melhor seria pedir um copo d’água que ir logo pegando. Ela olhava de longe, sem coragem de ir, sem coragem de vir. Foi quando ele desistiu. Ela se dirigiu à porta, abriu para que ele saísse. Ele pensou em dizer que a amava, que sentia muito, que nada será como antes anyway. Mas atravessou pela porta e, antes de dizer adeus, pediu que ela não esquecesse de trocar a água do beija-flor. Não se arriscou a ver se ela sorriu ou chorou. Não suportaria nenhum dos dois.

Não Amarás

ashortfilmaboutlovenz3Ontem à noite revi Não Amarás, do Kieslowski. Uma antiga conhecida uma vez disse que poucos filmes falam de amor de forma tão bonita como esse filme. Tantos anos depois, revendo-o, vejo que ela estava mesmo certa. Existe algo de inocente ao mesmo tempo tão malicioso no discurso sobre o amor nesse filme. E é um filme tão simples, poucos personagens, conflitos tão pontuais. É também um filme com uma trilha sonora muito cuidadosa, que estabelece em cenas cruciais um clima e um ritmo muito bem marcados. Grandes sequências de puro silêncio e logo uma música triste, enquanto os dois atores Grazyna Szapolowska e Olaf Lubaszenko interpretam a linda Magda e o jovem Tomek, que por ela diz estar apaixonado, por há mais de um ano espiá-la com um binóculo pela janela.

Uma das cenas que mais me tocaram e que ficaram na memória esses anos todos foi aquela onde Magda, de forma não muito legal, mostra para Tomek o que ela acha que é o amor. Acho que todo o discurso do filme está nesse cena, porque não só Magda mostra sua visão desesperançosa do amor, mas tanto ela como nós nos deparamos com a inocência dos que amam sem desejar, mas só contemplando, admirando o que se ama. Existe algo de inocente, ingênuo, mas ao mesmo tempo rude e agressivo nesse discurso sobre o amor nesse filme.

A sequência final é absolutamente deslumbrante. Dá vontade de praticamente decupar ela aqui, tamanha sua beleza e boa execução. Mas como o Youtube é coisa linda dos deuses, achei a cena final lá. Para vossa apreciação.

Fui procurar no Youtube, achei a cena que me fez chorar. Chorei de novo.

Caótica Ana

caoticaEsse foi o último filme do Julio Medem, que estreou na Espanha em março de 2007 e aqui nunca chegou a estrear. Eu baixei o filme ainda em 2007, mas nunca tinha chegado a ver. Por medo. O filme foi tão criticado e tão mal falado que eu tinha medo de eu também me decepcionar com um dos cineastas mais importantes na minha vida. Então eu simplesmente bloqueei Caótica Ana. Não assisti. Na minha cabeça esse filme era desnecessário e só serviria para borrar o cinema tão importante que o do Julio Medem é na minha vida.

Daí hoje resolvi assistir. Fui procurar o dvd onde o arquivo do filme esatava gravado e não achei em lugar nenhum. Isn’t it ironic? Daí tive que baixar o filme de novo – e foi tudo tão rápido. Depois de passar semanas estudando os cinco primeiros filmes dele, e estando tão fascinada pelo seu universo, não pude conceber a ideia de que o Medem um dia fizesse algo tão desprezível como disseram que Caótica Ana era.

O problema é que, realmente, o filme não é bom. Dizer isso de um filme de Julio Medem já me soa estranho, mas enfim. Vendo o filme eu me deliciava com as marcas de autoria dele, conseguia identificá-las todo o tempo, e, meu deus, como isso me deixa feliz! Me impressiona o modo que ele tem de fazer cinema, as histórias que conta, os tipos de personagens. Me impressiona a inventividade da sua câmera, as belíssimas escolhas de plano, os modos de explorar as paisagens com uma fotografia que sempre se renova. Medem é realmente impressionante, não tem jeito.

O problema de Caótica Ana é um problema iminente desde muito tempo. O excesso, o achar que tem coisas muito importantes pra dizer e que tem de dizê-las de modo afetado. Isso me deixou um pouco triste porque Medem sempre se livrou dessas armadilhas de modo genial e por isso mesmo eu o admiro tanto. Mas a protagonista de Caótica Ana não é tão fascinante como, por exemplo, Sofia, de La Ardilla Roja, ou a outra Ana, de Los Amantes del Círculo Polar. Mas ela se esforça muito, como muitas coisas no filme se esforçam pra funcionar, e isso incomoda tanto. E me entristeceu.

De qualquer modo, me emocionei muito em algumas partes do filme. A cena em que Ana se reencontra com o pai para se despedir dele é absolutamente linda. Chorei. Acho que só em Lucía y el Sexo eu chorei. Ah, não, chorei em Los Amantes também. Porque os filmes dele não são assim de chorar, mas tem umas cenas que, nossa senhora… Em Caótica Ana chorei três vezes, ainda mais no final, com a dedicatória.

O Julio Medem sempre faz dedicatórias no final dos filmes. Mas nesse é especial porque Caótica Ana foi uma ideia que nasceu da morte de Ana, a irmã do diretor, que morreu num acidente de carro quando estava a caminho de uma exposição. A Ana do filme é, como a Ana real, artista plástica, e no filme Medem quer, no fim das contas, contar a história de uma mulher que descobre que viveu muitas vezes, há milhares de anos, e que por mais que morra outra vez, vai nascer de novo e de novo e de novo.

Talvez por estar estudando o cinema dele e por, por tabela, estar conhecendo mais da vida dele e das referências da própria vida que coloca nos filmes, Caótica Ana me emocionou muito. No final do filme, a dedicatória diz: “A mi hermana Ana, que se fue. A mi hija Ana, que vino.” Choreeeeei. Ana é a terceira filha dele, a mais nova, e já era viva quando Ana, a irmã, morreu, mas ainda uma bebezinha. Adoro essas referências internas, acho lindo, me emociono mesmo. Além do mais, as pinturas usadas no filme são da própria Ana Medem.

No fim das contas, foi bom ter visto o filme. Me senti quase amiga da família. Acho que o Julio Medem ia gostar de ver o filme comigo. Tadinho, ele ficou tão chateado e depressivo com as críticas ruins ao filme. Eu conversaria com ele sobre todas as coisas que disse aqui e ficaria horas falando sobre como as histórias de amor que ele conta, cheia das imperfeições da mente humana, enchem minha vida. Perguntaria se algum dia ele soube qual era a perguntinha que estava escrita no avião de papel que Otto jogou pela janela. Perguntaria se a minha suposição sobre as escolhas de nomes para os personagens dos filmes dele está correta ou faz sentido. Ah, diria tantas coisa.

Mas eu agradeço por Caótica Ana. Me fez bem hoje, me reanimou, me fez ver por que é que Julio Medem é essencial.

Desde que entrei na Facom eu sabia que ia estudar o cinema do Julio Medem. Agora que finalmente chegou o momento de fazer meu TCC sobre a obra dele, estou começando a chegar naquele estágio de não mais querer mais nem olhar pra cara dele. Os cinco filmes que estou analisando, parece que já os conheço de trás pra frente. Leio artigos sobre ele e nada me parece novidade.

Por outro lado, é uma delícia embarcar nesse mundo tão a fundo. Esperei muito tempo por isso. E de algum modo sinto que vou fazer isso bem feito, que não é tão difícil como parece, que vai ser tranquilo e bonito.

Southern dreams

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Eu queria que ele chegasse pra mim, depois de uma noite algo louca tomando cerveja e brincando naquela velha jukebox, e me dissesse que eu não era nada do que ele esperava. E eu diria que ele era quase tudo o que eu esperava, com aqueles jeans e camisa quadriculada, aquelas costeletas feitas sob medida e as botas fazendo barulho no chão. Ele me diria que eu sou apenas uma menininha e eu lhe diria bem baixinho todos os meus sonhos de ter uma southern way of life. Ele sorriria e esperaria por um sinal, uma bobagem, a menção de uma música, uma tatuagem saindo por baixo da camisa, como por acidente. Ele me chamaria de lady com aquelee sotaque lindo e me levaria em casa, só pra no dia seguinte dizer que pensou em mim enquanto ouvia “Simple Man”. Eu diria que Lynyrd Skynyrd faz tanto sentido pra mim, e os olhos dele brilhariam como os de uma criança no natal. Ele diria que, se a gente fosse casar um dia, eu seria a noiva mais bonita. Eu ficaria sem graça, mas deixaria que ele visse os meus olhos, que brilhavam agora como os dele. Ele tomaria minha mão e me levaria pra passear numa old truck e ouviríamos Skynyrd enquanto ele me contaria histórias da sua infância. Depois voltaríamos ao mesmo bar de sempre e falaríamos sobre viver daquele jeito simples, andar por aí e viver apenas do que temos ao redor, perder o olhar no horizonte not seeing buildings standing tall… E perderíamos todo o tempo olhando no outro tudo o que iríamos amar por muitos e muitos anos.

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